“Desacelerando”: o que está saindo na imprensa!

“O disco novo por Arthur Dapieve” 
Os cadernos de Rodrigo Santos
Em tempos de streamings e audições randômicas, pode-se imaginar a cena: alguém escuta música distraidamente e se surpreende quando começa a tocar Um de nós. “Ei, música inédita do Cazuza em 2019?!” O espanto segue uma lógica, mas a resposta correta é: “Não, é uma música nova de Rodrigo Santos, escrita em parceria com Rodrigo Suricato.” Trata-se da primeira faixa de Desacelerando, o primeiro álbum solo de Rodrigo Santos desde sua saída oficial do Barão Vermelho, assinada com Suricato, que, por sua vez, acaba de assumir o posto de cantor e guitarrista deixado por Frejat na banda… Tudo, de alguma forma, se comunica, embora Rodrigo não tenha convivido nem com Cazuza nem muito menos com Suricato no Barão.
O espanto de nosso ouvinte hipotético ma non troppo se explicaria conforme se escutassem já os versos iniciais: “Um de nós deveria saber/ O amor acabou/ São 3:20 da manhã…” Atrás do vocal e do baixão de Rodrigo, roncam, implacáveis, a guitarra de Gustavo Camardella, a bateria do convidado paralama João Barone, os teclados de Pedro Augusto e a programação eletrônica de Cezar Delano. O clima é de Baixo Leblon – ou qualquer outro “Baixo”, Brasil adentro – ao fim de uma noitada. Que, como bem sabem os boêmios, significa o início de uma nova jornada… O que realmente une Rodrigo a Cazuza, mais do que as distintas temporadas no Barão, é o olhar do cronista musical sobre si mesmo, sobre suas paixões, sobre suas frustrações, sobre nós.
Um single digital com Um de nós e Quando o amor era medo precedeu a aparição de Desacelerando sinalizando o que encontrar numa merecida audição atenta: assim como o single, o álbum produzido por Rodrigo e Camardella reúne canções inéditas a canções conhecidas. Quando o amor era medo, parceria de Rodrigo, Mauro Santa Cecília e Frejat, apareceu pela primeira vez no álbum solo de estreia do agora ex-vocalista e guitarrista do Barão, Amor pra recomeçar, de 2001. Às vezes, a canção já era conhecida na voz do próprio Rodrigo, como Nunca desista do seu amor, que aparecia no seu próprio primeiro álbum solo, Um pouco mais de calma, de 2007.
Aqui, na nova gravação, Rodrigo, Camardella, Pedro, Delano e o baterista Marcelinho da Costa mantêm o caráter de hino pagão de Nunca desista do seu amor, sempre empolgante. Os versos, o ouvinte já conhece, são uma espécie de autoajuda para enamorados, com toques como “quem a gente quer/ nem sempre se resolve de uma vez” ou “se não houver palavra, escute”. Outros dois poderiam formar o dístico não só de Desacelerando mas de toda a obra de Rodrigo, que, somando álbuns e EPs, agora atinge 10 títulos: “Vou escrever num caderno/ tudo o que eu sinto”. Pois é assim que a gente se sente ao ouvir as letras de Rodrigo: fuçando seus diários. Ou seriam “noitários”?
Há, aliás, uma espécie de dialética entre dia e noite, encontro e desencontro, conhecido e desconhecido nas 11 faixas do novo álbum. A Um de nós, por exemplo, se segue o título autoexplicativo Juntos de novo (na madrugada), que Rodrigo havia registrado dois anos atrás, no álbum Efeito borboleta, dividido com Fernando Magalhães, guitarrista do Barão – bem como as músicas O meu juízo e Um novo recomeçar (Mais uma vez). O jogo segue na terceira faixa, a inédita Tanto faz, que lembra outra referência crucial no som de Rodrigo, os Beatles, não tivesse ele feito parte da banda cover Os Britos. Para ser mais específico, Tanto faz começa fazendo pensar em John Lennon, numa Imagine sem utopia. “Temos de evitar olhar pra trás”, canta-se.
Uma terceira faceta de Rodrigo, além do compartilhamento do mesmo universo de Cazuza e da Beatlemania, surge na oitava faixa do álbum, a delicada obra-prima Aquarela, de Vinicius de Moraes e Toquinho: ele também é um ótimo intérprete de obras alheias. Acompanhado de dois amigos de longa data, o guitarrista bossa-novista Roberto Menescal e o baterista roqueiro Kadu Menezes, além de metais arranjados por Serginho Trombone e da estratégica gaita de Rodrigo Eberienos, Rodrigo imprime ao vocal dessa versão soul-carioca uma tinta ainda mais melancólica que a original. Dessa forma, “puxa” Vinicius & Toquinho para si, para o coração de Desacelerando. Rodrigo pode até conseguir desacelerar, ok, mas não concebe cantar sem expor suas vísceras.
Parágrafo-bônus para uma linda faixa-bônus. Ao apagar das luzes de Desacelerando, ergue-se uma segunda versão para Quando o amor era medo, diferente de todas as anteriores. Quase onírica, dividida com outra voz pungente, a de Leo Jaime, velho amigo, ela conta com bonitas, discretas e funcionais cordas. O ouvinte, a essa altura, não faz mais confusão: está diante de um legítimo Rodrigo Santos.”

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