Entrevista Cwb – Rock and roll na essência

Em uma entrevista exclusiva para o Cwb Live, Rodrigo Santos falou sobre seu trabalho solo, sua carreira com o Barão Vermelho e a batalha vencida contra as drogas:

“O comércio acima de tudo. Essa é a lógica do mercado fonográfico mundial, atualmente. Dinheiro e vendagem se tornam cada vez mais importantes, deixando a qualidade da obra de lado. Felizmente, alguns artistas ainda tratam a música como uma parte inseparável de suas vidas e a paixão com que conduzem suas carreiras artísticas chama a atenção. O baixista Rodrigo Santos é um desses casos ‘raros’.

Rodrigo faz parte, desde 1991, de uma das bandas que melhor representam o rock nacional, o Barão Vermelho, além de já ter tocado com inúmeros nomes da música brasileira, como Lobão e Leo Jaime. Com o recesso momentâneo do Barão, após a turnê ‘+1 Dose’, que comemorou os 30 anos do grupo, no ano passado, o baixista vem se apresentando com o Rodrigo Santos & Os Lenhadores, acompanhado pelo baterista Kadu Menezes, ex-Kid Abelha e Lobão, e pelo excelente guitarrista Fernando Magalhães, do Barão Vermelho. Para Rodrigo, esse amor pelo trabalho se explica de maneira simples. ‘Gostar do que se faz e fazer com paixão sempre. Eu marco todos os shows e cuido do que será feito no dia, do repertório até a duração’, diz.

No final do ano passado, nos últimos dez shows da turnê do disco ‘Motel Maravilha’, seu mais recente álbum, Rodrigo atravessou o país com shows em Curitiba, Joinville, Montes Claros (MG), Fortaleza e Barra Grande (BA), entre outras cidades. ‘Isso vem desde sempre, pois sou apaixonado pelo que faço desde o tempo de tocar em fogueira. Poderia tocar por horas a fio. Isso passou para todos os trabalhos que fiz, seja com Leo Jaime, Lobão, Kid Abelha, Barão, Os Britos e carreira solo. Eu gosto de tocar e gosto de cantar. Só isso’, afirma.

The Police

Rodrigo vem preparando uma grande novidade para os próximos meses. O baixista vai realizar uma turnê com o ex-guitarrista do lendário The Police, Andy Summers. O encontro inusitado com Andy aconteceu em 2012, por meio de seu empresário, Luiz Paulo Assunção. “Eu sou muito fã de Police e Beatles. Então, nada mais natural do que eu ficar nervoso quando o conheci. Um jantar na casa do Luiz nos aproximou. Depois disso nos encontramos várias vezes. Ele deu canja em um show meu no Rio de Janeiro e me mandou nove canções inéditas. Uma delas está no meu novo CD ‘Motel Maravilha’, parceria nossa”, conta.

Antes disso, no próximo mês de abril, Rodrigo inicia uma nova tour, batizada de “Festa Rock”, com produção de um dos ícones da bossa nova, Roberto Menescal. ‘Depois o Andy, quando ele puder vir. O Luiz está cuidando disso. O repertório será composto por Barão, Police e nossas parcerias. Eu serei o cantor e baixista’, revela.

Motel Maravilha

O mais recente álbum de Rodrigo Santos, ‘Motel Maravilha’, vem sendo muito bem recebido pelo público e pela crítica brasileira. A faixa título e as músicas ‘Azul’, ‘Remédios’ e ‘Essa Canção é Nossa’ estão tocando bem em rádios por todo o país. Uma das canções do disco, ‘Me Dê Um Dia a Mais’, é uma parceria entre o baixista e Andy Summers. A canção já é uma amostra do que será a turnê que os dois músicos farão juntos, ainda neste ano. ‘Ela surgiu pelo fato de ele ter gostado de mim e me mandado algumas músicas que seriam enviadas para um africano. Mudei muito a versão original, inclusive o assunto da letra e a melodia, por isso a parceria. Das nove que recebi foi a que eu achei mais rock, então a escolhi para o CD. As guitarras são dele’, explica.

No CD, Rodrigo optou por se dedicar mais aos vocais, deixando as linhas de baixo para o produtor Nilo Romero. ‘Ele é um grande baixista. Ele fez os baixos demo enquanto eu estava na estrada, para adiantar o processo da pré-produção e, quando ouvi, gostei de tudo. Seria andar para trás se eu gravasse novamente’, diz.

Por conta desse ‘auxílio luxuoso’ do produtor, Rodrigo deu ainda mais ênfase ao canto. ‘Resolvi gravar apenas os quatro baixos que faltavam. Gostei de tudo que ele fez e decidi deixar! Minha preocupação era fazer um disco bom, não importa quem gravasse os baixos. E claro, a voz tem sido uma prioridade na minha vida, portanto me dediquei bastante a ela nesse CD autoral’, complementa.

Uma coisa que chama a atenção no trabalho autoral de Rodrigo Santos é o texto. As letras são sempre inteligentes e com boas sacadas, fato raro no rock brasileiro atual. ‘Venho de uma geração que se preocupa com os textos como forma principal de moldura para as canções, e isso é prioridade no meu trabalho. Tenho várias maneiras de escrever ou compor, mas a letra tem de ter um cuidado maior, ser bem trabalhada’, explica. Seu processo de composição não segue um método rígido. As ideias nascem em momentos de inspiração. ‘Algumas saem de primeira, em outras eu fico trocando palavras, eliminando 30 das 60 estrofes que escrevi. Não tenho fórmulas para escrever, apenas escrevo o que sinto’, explica o baixista.

Barão Vermelho

Em março do ano passado, o Barão Vermelho se apresentou em Curitiba, no Teatro Positivo. A turnê ‘+1 Dose’ celebrava as três décadas de carreira do grupo, de forma apoteótica. No palco, a banda parecia realmente estar comemorando todo esse tempo de estrada em clima alegre e descontraído. ‘Na verdade foi esse o motivo da tour. Nos divertimos bastante. Quando estamos juntos somos insuperáveis. Mas também tenho feito shows antológicos com o Rodrigo Santos & Os Lenhadores. Tudo é bacana. Olhar pra trás é bacana, mas para frente é mais desafiador. O Tempo não para’, afirma.

Mundo cibernético

Hoje, o mundo é regido pela internet. De multinacionais a pequenas empresas, se fazer presente no mundo virtual é uma obrigação para quem quer ser visto em um mercado cada vez mais competitivo. Entre os artistas do meio musical, essa realidade precisa ser levada ainda mais em conta. Entendendo isso, Rodrigo tem usado as redes sociais com muita inteligência, postando fotos dos shows, comentando sobre as passagens de som e procurando se manter próximo aos fãs. De acordo com ele, a rede mundial de computadores mudou a relação do público com os artistas. ‘Acho que aproximou bastante o real do virtual. Eu apenas tenho a ligação direta agora e a mantenho, como fazia normalmente antes de existir a internet. Sou assim, gosto de tratar bem os fãs e, realmente, tiro um tempo grande do meu dia pra isso. É como um debate em que todos participam e entram na viagem. Alguns eu conheço dos shows, outros ainda irei conhecer, e sempre com o maior respeito’, diz.

Mas para criar um vínculo com os fãs, é necessário que eles também interajam nas publicações. Pelo visto, os admiradores do trabalho do baixista compraram a ideia. ‘Esse é o perfil de quem me segue, educado e respeitoso, admirador do trabalho e pensamentos. Troco muitas ideias sobre música, drogas etc. A relação é próxima quando se quer estar próximo. Quem não quer, seja nos anos 1980 ou 2000, vai manter distância. Eu gosto e cuido disso com carinho’, enfatiza.

A internet mudou a forma do artista se relacionar com a mídia e com seu público, isso é um fato indiscutível. Mas o que existe de diferente na qualidade do rock brasileiro? Rodrigo acredita que algumas diferenças são bem perceptíveis entre os anos 80 e o cenário atual. ‘Talvez a vontade de quebrar a censura, com letras inteligentes e espertas. Tinha um objetivo. Hoje o objetivo, (não do rock), é fazer sucesso, apenas’, analisa.

O vício e a superação

Além do seu intenso trabalho como músico, Rodrigo também está se aventurando no ‘mundo literário’. O baixista está escrevendo a sua biografia que, entre outros assuntos, abordará de forma explícita a sua relação com as drogas e a luta para se livrar do vício. ‘Larguei quando achei a droga careta, não conseguia parar sozinho. Procurei ajuda em uma clínica e lá, durante três anos eu coordenei reuniões’, conta.

Rodrigo está ‘limpo’, sem consumir drogas ou álcool, há oito anos e meio. A batalha para conseguir superar o vício, porém, não foi nada fácil. ‘Aquilo não me rendia mais nada e eu já ia descer a ladeira. Parei antes disso. Minha mulher me ajudou muito. Hoje não sinto falta nenhuma. Convivo com malucos e não uso porque não quero mais. Não preciso e não quero’, afirma.

Mostrando confiança, Rodrigo conversa abertamente sobre o assunto nas redes sociais, procurando dividir com as pessoas a sua experiência de superação, principalmente com as que estejam passando pelo mesmo problema. ‘Falo muito sobre isso no Facebook, como forma de passar a informação adiante, apesar de isso ser uma coisa bem individual. Não sou careta e faço palestras com um foco, apenas, o de ajudar quem possa estar precisando sair. Não numa de censor ou dono da verdade, e sim como um ser humano roqueiro que passou por milhões de histórias e fases do rock nacional, de uma banda grande, e que hoje vive sem o estereótipo de doidão’, analisa.

A decisão final, porém, precisa ser tomada pelo usuário. Ter força de vontade e estar decidido a largar as drogas é fundamental para ter sucesso em qualquer tipo de tratamento. ‘Fui focado para parar e nunca recaí, porque trabalhei duro a cabeça para entender o processo de parar. Nunca me senti tão livre e feliz como agora. Não a toa, fiz seis discos e um DVD, de 2007 até 2014. Parar com tudo foi o principal fator de tudo estar dando certo, de família e filhos até o trabalho e os projetos. Se não fosse por isso, nada disso estaria acontecendo. Agora sobra tempo para tudo’, revela.

Apesar de ser uma passagem importante em sua vida, a luta contra as drogas é só um ingrediente da biografia. Rodrigo passará a limpo a sua vida como músico e as histórias que a estrada proporciona. ‘Não será um livro de autoajuda. Só que, quando as pessoas lerem, entenderão como tudo foi acontecendo e como pode acontecer com qualquer um. Mas várias histórias minhas na carreira solo, com o Barão, Lobão, Kid etc, serão contadas’, diz.

Como Rodrigo Santos acompanhou a consolidação do rock nacional, nos anos 1980, e viveu boa parte disso em cima do palco, boas histórias não vão faltar. ‘Eu sou músico antes de tudo. A droga entrou bem depois, desviou uma parte do caminho, mas a música nunca parou, sempre esteve presente na minha vida. A droga entra aos 14, depois entram outras aos 19 e fica ruim dos 28 aos 40. Dos 41 até agora é sem nada, e a música vem dos 10 até os 50. Essa é a minha essência’, finaliza.

Se preferir, confira a matéria direto no site do Cwb Live, clicando aqui.

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